- Você não compreende, não consegue compreender.
No meio do rio, eu via a pedra. A única naquela extensão azul de água,
o pico negro erguido em inesperada fragilidade na solidão. Eu não tinha
instrumentos para caminhar até ela, a pedra, tomá-la nos braços, por um
instante debruçar minha ternura sobre seu isolamento num absurdo desejo de
que em sua insensibilidade de coisa ela se fizesse sensível e, assim suavizada,
contivesse o desespero amparando-se em mim. Por que ela se perdia assim e
assim se assumia e se cumpria em pedra, dona de si mesma, dispensando
qualquer afeto, qualquer comunicação? Ela se bastava. Parecia já ter ido além
da própria estrutura num lento inventariar do mundo ao redor, como se seu
pico tivesse olhos e esses olhos projetassem indagações em torno, avançando
nas descobertas, constatações se fazendo certeza. E como se seu isolamento
fosse deliberado, como se já não acreditasse em mais nada e tivesse escolhido
o amparo apenas das águas, a precária proteção do azul como se tivesse
escolhido o vento, a erosão, os vermes, os musgos que a roíam devagar.
Assim, da mesma forma como outros escolhem o apoio das pessoas ou a
nudez do campo, ela escolhera o desafio da entrega. O despojamento de ser,
insolucionada e completa em suas fronteiras: pedra porque pedra fora era e
seria num sempre que a sustentava, frágil e absoluta.
- Veja, os meus cabelos estão molhados, caminhei horas pela chuva querendo e não
querendo procurar você.
Frágil e absoluta em sua camação de mineral, as raízes, se as tivesse,
encravadas no fundo do rio. A sua base por onde escorregam peixes, cobras,
onde a lama se acumulava lenta tentando cobri-la por completo. Ondas frágeis
de rio e, atrás, a ilha espalhada em verde contra o céu quase negro do
entardecer. O sol além do rio, e o céu quase todo desfeito em cores que em
breve afundariam no escuro. As cores morreriam, o claro se faria treva e a
pedra mergulharia em sombras, impressentida -quem veria jamais uma pedra
emergindo do negro que cobriria o rio? E re... nasceria, depois. Em cada
amanhecer, renovada e sempre a mesma, endurecida em sua natureza. A
pedra. Por que me doía e pesava por dentro, como se eu jamais conseguisse
atingi-la? Ah meus gestos incompletos, meu olhos que não ultrapassavam o
que viam -e ela me encarava, alheia ao meu espanto, inatingível quem sabe
para sempre. E não seria apenas uma forma, uma silhueta de coisa nascendo
da água, projetada contra o espaço, cercada de vazio, um pedra? Que espécie
de dureza havia nela, negando a penetração? A compreensão mesma de sua
incompreensão -por que se fechava tanto, e tanto se esquivava, e sem se
esquivar nem se fechar, feita em si -apenas um pedra?
- Podia esperar de qualquer um essa fuga, esse fechamento. Mas não em você, se
sempre foram de ternura nossos encontros e mesmo nossos desencontros não pesavam, e se
lúcidos nos reconhecíamos precários, carentes, incompletos. Meras tentativas, nós.
Mas doces.
Por que então assim tão de repente e duro, por quê?
Uma pedra. Igual a si mesma, como só o são as naturezas inertes. As
pessoas escorregam e, se num momento foram, no seguinte já não mais o são;
a possibilidade de ser se reduz, contrai, escapa, ou num repente aumenta para
explodir inesperada. As coisas se afirmam nelas mesmas em cada segundo de
cada minuto. E em cada segundo futuro, serão ainda elas mesmas, sem se
acrescentarem ou diminuírem. Para sempre, uma pedra será uma pedra. E por
que então, enfim, esta palidez minha? Por que a encarava e pensava, e a
constatava em sua permanência despida de mistérios e, no entanto, hesitava?
Deveria compreendê-la no passar de olhos e ir adiante sem esperar. Contudo,
esperava. De uma pedra -o quê? Se me machucava por dentro e quase
tombava, meio aniquilado, impossível prosseguir. Derramar de ternura do
vazio de minhas mãos, meus olhos quase verdes de tanto amor recusado,
emoções informuladas pelo silêncio de noturna precisão -tudo convergindo
para a pedra. Uma fatalidade, o inumano atingir o humano assim, de brusco?
A nudez de meus pés devassava o frio. O vidro do rio, a lâmina do vento, a
morte do sol. E a pedra. Inatingível.
- Compreenda, eu só preciso falar com você. Não importam as palavras, os gestos,
não importa mesmo se você continua a fugir e se empareda assim, se olha para longe e não
me ouve nem vê ou sente. Eu só quero falar com você, escute .
Inatingível. Escorregava em torno dela, percorrendo consciente uma
trajetória de impossível. Em torno da pedra um círculo de repulsão que me
jogava longe no momento da aproximação de seu centro. Cansaço pesando
em mim, baixei a cabeça. As minhas mãos perdidas sobre a areia suja da beira
do rio, as minhas mãos fremiam de fadiga. Círculos dourados percorriam o
espaço, penetravam concêntricos em minhas órbitas, os círculos nascidos em
torno da pedra. Pelos descaminhos, meu rumo se perdia, eu tornava a buscar,
recomeçava- e novamente errava, e novamente insistia, Túrgido de ternura,
me encarei. E baixei a cabeça com vergonha. A pedra prescindia de mim. Eu,
que me projetava num tempo desconhecido, prescindir de tudo e, impotente,
me projetava na pedra, lúcido de que não seria jamais o que ela estava sendo.
Eu que não conseguia alcançar o que ela alcançara e para sempre me perderei
entre as pessoas, vagando sem encontrar, sem saber sequer o que busco, o que
buscarei. A pedra me agredindo com seu ser completo.
- É esse gelo por dentro que eu não consigo entender. Você se doou tanto quando eu
não pedia, e no momento em que pela primeira vez pedi, você negou, você fugiu. É esse seu
bloqueio de aço encouraçando o silêncio, eu não consigo entender.
Completo. Seria possível o absoluto em algo ou alguém às vésperas da
destruição? Eu não sabia nem sei, ainda. Escurecia cada vez mais, a silhueta da
pedra já se dissolvera talvez na noite, mas a sua imagem permanecia em
minhas retinas. E no escuro, ela deixaria de ser? No escuro as coisas esquecem
de si mesmas para se tornarem apenas coisas, desligadas de qualquer suspeita
que se possa ter sobre elas? A imobilidade do rio com suas ondas fracas, feito
um reafirmar de inércia. E eu. Que era eu naquele momento exato, jogado na
areia, cheio de movimentos subterrâneos? Que era eu, com o incompleto de
minhas tentativas que não se cumpriam, e permaneciam vagando num ritmo
de espanto? O rio era o rio, o céu era o céu, a areia era a areia, mas a pedra
recusara meu pensamento e se fizera unicamente em pedra. E eu que
escorregava, me perdendo em corredores de luz filtrada, pelas varandas
entrecobertas de samambaias, por solares arquitetados sobre pântanos, pelos
pântanos mesmo de água pútrida e serpentes entrelaçadas em tronco de
árvores viscosas - eu que me reconhecia ao longe e não ia além do gesto para
me conhecer. Mas se o rio tinha peixes e lama e musgo no fundo, e tinha
mistérios; e se o céu estava repleto de mundos formando o cosmos e o
desconhecido infinito das galáxias, e tinha mistérios; se a areia onde haviam
restado detritos e sulcos, onde vicejava uma grama rala, tinha também
mistérios. Somente a pedra, até o fundo de si pedra, das nascentes ao topo,
nada contendo além de seu ser.
- Seria isso, então? Você só consegue dar quando não é solicitado, e quando pedem
algo você foge em desespero. Como se tivesse medo de ficar mais pobre, medo de que se alcance
seu centro e nesse centro exista alguma coisa que você não quer mostrar nem dar ou dividir.
Contido, dissimulado, você esconde essa coisa, será assim?
Ser. Já nada mais restava. Apenas a noite e, dentro dela, o meu silêncio
de incompreensão. Meus passos afundavam na areia deixando uma esteira de
poças que conteriam as estrelas, não fosse o imenso escuro de tudo. Cada vez
mais lento eu caminhava. Para longe do rio. Para longe da pedra. Para longe
do medo. Para longe de mim.
Caio F. A.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
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