segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


"...Pedi uma definição ou me quer e vem, ou não me quer e não vem.
Mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração.
Avisei que não dou mais nenhum sinal de vida. E não darei.
Não é mais possível. Não vou me alimentar de ilusões.
Prefiro reconhecer com o máximo de tranqüilidade possível que estou só
do que ficar a mercê de visitas adiadas, encontros transferidos.
No plano real: que história é essa? No que depende de mim, estou disposto e aberto.
Perguntei a ele como se sentia. Que me dissesse.
Que eu tomaria o silêncio como um não e ficaria também em silêncio. Acho que fiz bem."

Caio F. A.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Precisar...


~"Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço."


Caio F. A.

domingo, 27 de junho de 2010

Tudo começou a partir do momento em que meus olhos reecontraram os seus, tive a impressão de que já os conhecia,
talvez naõ desta vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O destino se encarregou de me dar o momento de beijar os olhos de alguém,
procurei oque siginificava, mas não encontrei, então resolvi criar um.



beijo nos olhos: uma maneira de tocar a alma da pessoa escolhida pelas forças celestes,
sentir um novo aroma, prova real de que o momento é único,da mesma forma que o céu é azul
e não se sabe o por que. Onde é representado pelo carinho, bons sentimentos e pela magia do momento.
obs: não se deve planejar dar um beijo nos olhos, deve-se sentir.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

um amor que surgiu com os braços totalmente erguidos no ar, marcado pela espotaneidade, a simplicidade, com pequenos segredos contados como se fosse palavras jogadas ao vento.
Bem, não quero deixar isso morrer, morto eu estava antes, e surpreendentemente resurgi das cinzas, elas foram sopradas e fiquei novinho em folha, mas a cada dia o céu fica mais nubluado, as luzes cada vez mais fracas, eu acho que foi cortado um tipo de elo°, no começo era um imã, eu me atraia a você e você a mim, uma forma quase que natural de ligação, era com eu vivesse em você.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

DIÁLOGO

- Você não compreende, não consegue compreender.

No meio do rio, eu via a pedra. A única naquela extensão azul de água,
o pico negro erguido em inesperada fragilidade na solidão. Eu não tinha
instrumentos para caminhar até ela, a pedra, tomá-la nos braços, por um
instante debruçar minha ternura sobre seu isolamento num absurdo desejo de
que em sua insensibilidade de coisa ela se fizesse sensível e, assim suavizada,
contivesse o desespero amparando-se em mim. Por que ela se perdia assim e
assim se assumia e se cumpria em pedra, dona de si mesma, dispensando
qualquer afeto, qualquer comunicação? Ela se bastava. Parecia já ter ido além
da própria estrutura num lento inventariar do mundo ao redor, como se seu
pico tivesse olhos e esses olhos projetassem indagações em torno, avançando
nas descobertas, constatações se fazendo certeza. E como se seu isolamento
fosse deliberado, como se já não acreditasse em mais nada e tivesse escolhido
o amparo apenas das águas, a precária proteção do azul como se tivesse
escolhido o vento, a erosão, os vermes, os musgos que a roíam devagar.
Assim, da mesma forma como outros escolhem o apoio das pessoas ou a
nudez do campo, ela escolhera o desafio da entrega. O despojamento de ser,
insolucionada e completa em suas fronteiras: pedra porque pedra fora era e
seria num sempre que a sustentava, frágil e absoluta.

- Veja, os meus cabelos estão molhados, caminhei horas pela chuva querendo e não
querendo procurar você.

Frágil e absoluta em sua camação de mineral, as raízes, se as tivesse,
encravadas no fundo do rio. A sua base por onde escorregam peixes, cobras,
onde a lama se acumulava lenta tentando cobri-la por completo. Ondas frágeis
de rio e, atrás, a ilha espalhada em verde contra o céu quase negro do
entardecer. O sol além do rio, e o céu quase todo desfeito em cores que em
breve afundariam no escuro. As cores morreriam, o claro se faria treva e a
pedra mergulharia em sombras, impressentida -quem veria jamais uma pedra
emergindo do negro que cobriria o rio? E re... nasceria, depois. Em cada
amanhecer, renovada e sempre a mesma, endurecida em sua natureza. A
pedra. Por que me doía e pesava por dentro, como se eu jamais conseguisse
atingi-la? Ah meus gestos incompletos, meu olhos que não ultrapassavam o
que viam -e ela me encarava, alheia ao meu espanto, inatingível quem sabe
para sempre. E não seria apenas uma forma, uma silhueta de coisa nascendo
da água, projetada contra o espaço, cercada de vazio, um pedra? Que espécie
de dureza havia nela, negando a penetração? A compreensão mesma de sua
incompreensão -por que se fechava tanto, e tanto se esquivava, e sem se
esquivar nem se fechar, feita em si -apenas um pedra?

- Podia esperar de qualquer um essa fuga, esse fechamento. Mas não em você, se
sempre foram de ternura nossos encontros e mesmo nossos desencontros não pesavam, e se
lúcidos nos reconhecíamos precários, carentes, incompletos. Meras tentativas, nós.
Mas doces.

Por que então assim tão de repente e duro, por quê?

Uma pedra. Igual a si mesma, como só o são as naturezas inertes. As
pessoas escorregam e, se num momento foram, no seguinte já não mais o são;
a possibilidade de ser se reduz, contrai, escapa, ou num repente aumenta para
explodir inesperada. As coisas se afirmam nelas mesmas em cada segundo de
cada minuto. E em cada segundo futuro, serão ainda elas mesmas, sem se
acrescentarem ou diminuírem. Para sempre, uma pedra será uma pedra. E por
que então, enfim, esta palidez minha? Por que a encarava e pensava, e a
constatava em sua permanência despida de mistérios e, no entanto, hesitava?
Deveria compreendê-la no passar de olhos e ir adiante sem esperar. Contudo,
esperava. De uma pedra -o quê? Se me machucava por dentro e quase
tombava, meio aniquilado, impossível prosseguir. Derramar de ternura do
vazio de minhas mãos, meus olhos quase verdes de tanto amor recusado,
emoções informuladas pelo silêncio de noturna precisão -tudo convergindo
para a pedra. Uma fatalidade, o inumano atingir o humano assim, de brusco?
A nudez de meus pés devassava o frio. O vidro do rio, a lâmina do vento, a
morte do sol. E a pedra. Inatingível.

- Compreenda, eu só preciso falar com você. Não importam as palavras, os gestos,
não importa mesmo se você continua a fugir e se empareda assim, se olha para longe e não
me ouve nem vê ou sente. Eu só quero falar com você, escute .

Inatingível. Escorregava em torno dela, percorrendo consciente uma
trajetória de impossível. Em torno da pedra um círculo de repulsão que me
jogava longe no momento da aproximação de seu centro. Cansaço pesando
em mim, baixei a cabeça. As minhas mãos perdidas sobre a areia suja da beira
do rio, as minhas mãos fremiam de fadiga. Círculos dourados percorriam o
espaço, penetravam concêntricos em minhas órbitas, os círculos nascidos em
torno da pedra. Pelos descaminhos, meu rumo se perdia, eu tornava a buscar,
recomeçava- e novamente errava, e novamente insistia, Túrgido de ternura,
me encarei. E baixei a cabeça com vergonha. A pedra prescindia de mim. Eu,
que me projetava num tempo desconhecido, prescindir de tudo e, impotente,
me projetava na pedra, lúcido de que não seria jamais o que ela estava sendo.
Eu que não conseguia alcançar o que ela alcançara e para sempre me perderei
entre as pessoas, vagando sem encontrar, sem saber sequer o que busco, o que
buscarei. A pedra me agredindo com seu ser completo.

- É esse gelo por dentro que eu não consigo entender. Você se doou tanto quando eu
não pedia, e no momento em que pela primeira vez pedi, você negou, você fugiu. É esse seu
bloqueio de aço encouraçando o silêncio, eu não consigo entender.

Completo. Seria possível o absoluto em algo ou alguém às vésperas da
destruição? Eu não sabia nem sei, ainda. Escurecia cada vez mais, a silhueta da
pedra já se dissolvera talvez na noite, mas a sua imagem permanecia em
minhas retinas. E no escuro, ela deixaria de ser? No escuro as coisas esquecem
de si mesmas para se tornarem apenas coisas, desligadas de qualquer suspeita
que se possa ter sobre elas? A imobilidade do rio com suas ondas fracas, feito
um reafirmar de inércia. E eu. Que era eu naquele momento exato, jogado na
areia, cheio de movimentos subterrâneos? Que era eu, com o incompleto de
minhas tentativas que não se cumpriam, e permaneciam vagando num ritmo
de espanto? O rio era o rio, o céu era o céu, a areia era a areia, mas a pedra
recusara meu pensamento e se fizera unicamente em pedra. E eu que
escorregava, me perdendo em corredores de luz filtrada, pelas varandas
entrecobertas de samambaias, por solares arquitetados sobre pântanos, pelos
pântanos mesmo de água pútrida e serpentes entrelaçadas em tronco de
árvores viscosas - eu que me reconhecia ao longe e não ia além do gesto para
me conhecer. Mas se o rio tinha peixes e lama e musgo no fundo, e tinha
mistérios; e se o céu estava repleto de mundos formando o cosmos e o
desconhecido infinito das galáxias, e tinha mistérios; se a areia onde haviam
restado detritos e sulcos, onde vicejava uma grama rala, tinha também
mistérios. Somente a pedra, até o fundo de si pedra, das nascentes ao topo,
nada contendo além de seu ser.

- Seria isso, então? Você só consegue dar quando não é solicitado, e quando pedem
algo você foge em desespero. Como se tivesse medo de ficar mais pobre, medo de que se alcance
seu centro e nesse centro exista alguma coisa que você não quer mostrar nem dar ou dividir.
Contido, dissimulado, você esconde essa coisa, será assim?

Ser. Já nada mais restava. Apenas a noite e, dentro dela, o meu silêncio
de incompreensão. Meus passos afundavam na areia deixando uma esteira de
poças que conteriam as estrelas, não fosse o imenso escuro de tudo. Cada vez
mais lento eu caminhava. Para longe do rio. Para longe da pedra. Para longe
do medo. Para longe de mim.

Caio F. A.

domingo, 23 de maio de 2010

Na Terra do Coração

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.


Caio Fernando Abreu.